Anti-Similar
:: o qualquer e a coisa ::

"Depois, nada, voltar ao labirinto das ruas, desorientar-se, perder-se e tornar atrás, caminhar, comer sem apetite, só para conseguir aguentar de pé o corpo, entrar num cinema por duas horas, distrair-se a ver as aventuras de uma expedição a marte no tempo em que ainda lá existiam homenzinhos verdes, e sair piscando os olhos à luz brilhante da tarde" (José Saramago - "Ensaio sobre a lucidez")

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17.3.08

Amém

Quando eu era criança, minha vó sempre me dizia que é preciso tomar cuidado com o que se fala, pois "os anjos ficam passando por aí, dizendo 'amém'". E se eles passassem justamente no momento em que você desejasse alguma coisa em voz alta, o tal desejo se realizaria, por mais ironia que houvesse nele. Eu não era a única a ouvir isso. Me lembro bem dela dizendo isso para alguém que acabara de dizer "tomara que eu morra mesmo".

Eu ficava imaginando aquela fileira de anjos flutuantes e invisíveis murmurando "...amém, amém, amém, amém...", sem parar. Agora, sempre que estou num momento de raiva, pensando ou dizendo coisas como "tomara que eu seja demitida" ou "tomara que eu fique com gripe" (sei, sei, é bem estranho dizer esse tipo de coisa), me vem essa imagem dos anjos enfileirados dizendo "amém" sem parar.



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9.3.08

De volta à esquisitice

Eu ia escrever sobre alguma coisa... Tinha até definido, enquanto andava pela calçada com mapinhas de São Paulo, qual seria o formato do texto. Curto, mas com conteúdo. Com conteúdo, mas com boa forma. Com boa forma, mas despretensioso. Que pretensão! Mais pretensão ainda é entrar nessa falsa modéstia achando que alguém ainda cai nessa.

Enfim... Eu ia escrever sobre alguma coisa... Mas esqueci! Esqueci o tema! Deus! Esqueci sobre o que eu ia escrever, do mesmo jeito que esqueci qual era a senha daquele cartão que uso todos os dias... E que venha o barulho triunfal de uma orquestra anunciando o retorno. E que retorno! Retorno que começa com um branco na memória...

Enfim... Fica aqui uma dica qualquer: agora que já não passa na Sessão da Tarde, assistam ao filme "Edward, mãos de tesoura". Agora é cult e, deus!, que coisa mais estranha... Imagine alguém acordando e pensando "Imagine um cara com tesouras no lugar das mãos!". Não é tão difícil imaginar? Agora imagine convencer um estúdio a bancar um filme desses..



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24.12.07

Um título

A nada incrível nem triste história de um homem comum que não tinha nenhum talento, que não tinha sorte nem azar, a quem os pais não deram um nome esdrúxulo nem um sobrenome de renome, que não aprendeu a andar nem a falar antes do tempo, que não era bonito nem feio, nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem careca nem cabeludo, que não era bom nem mau, não viveu muito nem pouco, não era louco nem normal, que teve gripes e resfriados, mas nenhuma doença rara, que não ficou famoso, que não era solitário, que não repetiu nenhum ano na escola, que se formou com média 7,5, que não era legal nem chato, que não escreveu um livro, que não era rico nem pobre, que não se interessava de verdade por nada, que não se desinteressava de verdade por nada, que não era nem o melhor nem o pior funcionário, que não tinha poucos nem muitos amigos, que não se importava em ser medíocre - isto é, mediano -, que votou em todas as eleições, tomou todas as vacinas, não fez nenhuma viagem incrível, não descobriu nada e não inventou nada.



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30.9.07

Idiossincrasias da vizinhança IV

O homem não se continha ali na lotação. Tinha que ligar para um, dois, três amigos, perguntando se era verdade que o P... ia sair candidato a prefeito. Porque, poxa, essa seria uma boa notícia, né? Afinal, ele ia mesmo se candidatar a vereador, e se o P... se candidatasse a prefeito... "Não sabe não? Ah, te ligo mais tarde... Sabe? Pra gente começar a articular as atividades."



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28.9.07

Idiossincrasias da vizinhança III

A televisão do bar estava ligada, pela primeira vez em várias semanas, na novela das oito. Quem matou Taís? Bom, não vejo novela, mas sei que nessa aí tem (tinha - logo a novela será passado) duas irmãs gêmeas: uma boa e uma má. Quem matou Taís? Todo mundo queria saber. "Essa é a Taís?". "Não, é a Paula". "É a Taís! Olha o vestido vermelho". Tá. Quem matou a Taís, então, foi o Wagner Moura, que também matou uns supostos traficantes num filme sobre a Rota carioca. Enfim, eita final chato... Mesmo sem assistir à novela, o mais óbvio era que o tal do Olavo fosse o assassino. Nada mais óbvio do que um assassino chamado Olavo, usando terno e com cara de quem comeu e não gostou. Ok, ok, sabe o que seria legal? Se, no final, a gêmea boa fosse na verdade a gêmea má, pagando uma de atriz... Isso sim seria originalidade. Mais original ainda se a gêmea má, que era a gêmea boa, viesse atormentar, em fantasma, a gêmea boa, que era a gêmea má. E o tal do Olavo podia ser uma espécie de alucinação coletiva, provocada pela esquizofrenia adquirida pelos personagens da novela por ficarem muito tempo sem ir ao banheiro (já viu personagem de novela fazendo isso?). "Mas daí estraga a novela!". Chega mais um e lança a pergunta: "Quem matou a Taís?".



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25.9.07

Idiossincrasias da vizinhança II

Dizem que o ferro-velho paga uns 14 reais pelo quilo do cabo de energia. Foi provavelmente pensando nesses 14 que um desconhecido arrebentou a lateral da caixa de energia elétrica do bar e levou alguns fios embora. Um vizinho ouviu o barulho e correu atrás do desconhecido com um pau. Eram umas duas da manhã. Às três ele voltou para terminar o trabalho, e terminou. De manhã, o buraco na parede fez fama. Um dizia que, se tivesse ouvido, ia dar uns tiros - na bunda, que é pro cara ficar um tempão sem sentar. Outro dizia que, se tivesse ouvido, soltava uma bombinha, dessas que não merecem o diminutivo. Outro, que chamava a polícia. Outro, que o cara merecia tomar um choque. Outro, que os tempos estão horríveis mesmo, só pode ser o fim do mundo.



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23.9.07

Idiossincrasias da vizinhança

Logo no início da rua, depois da construção de esquina, há uma casa abandonada. Ali já morou até que muita gente, mas de uns dez ou doze anos pra cá, o dono desistiu de alugar o espaço. Tampouco quer derrubar a casa, que agora é só uma carcaça mesmo, sem teto e com paredes aos pedaços. O mato cresce e os vizinhos desconfiam de que é dali que vêm as moscas e as baratas que atormentam os arredores em dias e noites quentes. De vez em quando o dono aparece, só pra ver se ninguém ocupou o terreno. Quando alguém resolve cobrar algum tipo de manutenção, ele responde que vai deixar do jeito que está, que não tem coragem de derrubar as paredes da casa onde o filho dele nasceu. Para alguns, ser vizinho de uma casa abandonada é terrível: têm medo de ladrões pulando o muro, usuários de drogas, seqüestros, orgias e pernilongos. Para outros, é até algo bom: "melhor não ter vizinho... imagina se aí morasse um vizinho barulhento".

Ao lado da casa abandonada há outra casa. Esta, bem ocupada, dividida em várias residências, cada uma delas habitada por um núcleo familiar. Uma ou outra eles alugam. Alugaram certa vez para uma família que vivia de pedir e revender doações (móveis, roupas, alimentos). Eles tinham uma Kombi branca, velha e barulhenta, em cujo vidro traseiro se podia ler algo como "Guerreiro ferido mais não morto". Mas recentemente a Kombi foi roubada e eles deixaram a casa. Pra onde foram, ninguém sabe. Se ninguém me contasse isso, eu nem teria percebido a ausência (mesmo tendou ouvido o barulho do motor da Kombi diariamente por vários meses).



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20.9.07

Alergias

Morando numa cidade como esta, cedo ou tarde você ganha uma alergia. Pode ser alimentar, pode ser de pele, pode ser respiratória. Morar numa cidade como esta se torna, cedo ou tarde, insuportável. Mas a gente insiste em ficar, movida sei lá por que por uma insanidade contagiosa meio de preguiça meio de fatalismo. Aqui a gente lembra o tempo todo que o pó ou a água vai chegar, e um deles vai engolir a gente.

Morando numa cidade como esta, onde os dias de sol são insuportáveis, os dias frios são insuportáveis e os dias de chuva são insuportáveis, você vai vomitar, se coçar ou espirrar. Você pode se trancar num cômodo, deixando a janela só com o vidro (para lembrar que existe luz), mas o pó da cidade insuportável vai chegar até você. Você pode tirar o pó, mas ele vai se acumular cada vez mais, e mais, e mais, e vai te enganar, se enfiando naqueles cantos das coisas que você não tem a mínima obrigação de lembrar que existe. É uma batalha perdida.



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2.9.07

Casinha meio rosa, meio laranja

Um dia, você anda pelo centro da cidade e vê mais do que prédios e pessoas apressadas ou dormindo nas calçadas. Há um passado, cheio de histórias. Gente que acorda em horários inimagináveis para ir ao trabalho. Gente que acredita em discos voadores, gente esquizofrênica, voluntários, religiosos, ateus, piadistas, fugitivos, leitores de James Joyce...

No dia seguinte, você não vê mais nada. O passado se esvaiu e tudo aquilo é mesmo só aquilo, um presente sem graça, os esbarrões irritantes, pressa e sonolência.

Não precisa ser de um dia para o outro. Pode ser também de uma hora para a outra ou de um minuto para o outro. Some o sentido, some a história. Fica só o vazio. Mas depois reaparece o "a mais" das coisas, e o mundo fica mais interessante de novo. É a gente que muda ou é o mundo?

Já não era mais dia, mas também ainda não era noite. Estávamos bem naquele limiar onde as coisas são diferentes, onde se pode mudar de idéia sem pensar muito, onde a luz é vermelha e laranja, o calor não é tão infernal e as pessoas ainda andam pelo bairro.

Pela janela, que aos poucos começava a refletir o interior do próprio quarto, podia-se ver o corredor rosado da casa da frente. Parecia uma casinha de interior, onde a vida vai mais devagar, onde as coisas são mais leves e te fazem ter saudade do que não viveu.

Pensei ver bem lá no fundo, no fim do corredor, uma moldura que poderia ser um retrato de um casal. Um retrato daqueles pintados à mão, antigos. A luz do último cômodo era fraca, como eu imaginava serem as luzes no sítio, no interior do interior, onde talvez alguém ainda conte histórias de mulas sem cabeça e fantasmas, onde o cimento ainda não tenha coberto a terra e alguém ainda saiba o que são gafanhotos e mamangavas.

Já não havia mais sol e olhei para a esquerda, para o mercadinho da esquina. E aquilo já era de novo só aquilo. Só um pedacinho desta cidade triste, com as pessoas indo e vindo. Um carro passa, tocando uma música dançante cantada em inglês. Nem o rosa da casa era mais rosa. Agora era só um alaranjado meio esquisito, meio de mau gosto. No fundo, não havia retrato nenhum.



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21.8.07

Uma proposta para o novo milênio que já começou

Venho por meio deste sugerir, senhoras e senhores, a adição do verbo "amerdar" à fantástica língua portuguesa, a última flor do lácio, ou o último lácio da flor. A título de exemplo, segue uma possível conjugação do verbo no tempo presente:

Eu amerdo
Tu amerdas
Ele/Ela amerda
Nós amerdamos
Vós amerdais
Eles/Elas amerdam


Gostaria de ressaltar a extrema importância desse neologismo para uma verbalização mais sincera e profunda de sentimentos escrotos - tão escrotos quanto reais, tão reais quanto humanos, tão humanos quanto... a merda. Os franceses possuem um verbo semelhante - emerder, emerdé ou emmerdè, gê nê sê pá -, mas está mais ligado ao sentimento de irritação do que à merda em si.

Em português, o verbo amerdar estaria mais ligado ao material orgânico do qual é derivado. O verbo amerdar contribuiria para a imensa riqueza de nossa língua, com inúmeras possibilidades de uso:

Uso denotativo: Ele amerdou o banheiro = Ele encheu o banheiro de merda.
Uso conotativo: Tu amerdas o mundo. = Tu transformas este mundo numa merda.
Uso relexivo: Eu me amerdo. = Me atolei em merda [em sentido denotativo ou conotativo].
Uso exclamativo: Pare de me amerdar! = Guarde sua merda apenas para você.
Uso interrogativo: Que tal amerdar? = Que tal jogar merda no ventilador? [em sentido denotativo ou conotativo]
Uso situacional: Estamos amerdados. = Estamos na merda.



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2.8.07

Em busca dos grandes consensos dos adultos racionais

1. Andar sempre vestido pelas ruas da cidade.
2. Segurar o xixi e o cocô quando não houver banheiro por perto.
3. Não sair por aí gritando "ahhhhs" e "uhhhhs" sem motivo aparente.



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Até hoje eu me lembro. Era na época em que ainda se precisava ir à delegacia para tirar o R.G. Havia uma salinha de espera e, em frente, a sala do delegado. Uma mulher em pé, com uma criança, diante da mesa. Do outro lado, o delegado sentado. Ela falava alguma coisa e ele gritava. Não lembro o que ele dizia, mas sempre começava com um "Mas, minha senhora...!". Todos olhavam para o interior da sala sempre que se iniciava uma exclamação do senhor-delegado. Os olhares eram de surpresa, talvez de medo por ser o próximo a adentrar a sala, talvez de indignação. Mas não é difícil imaginar que, no mundinho do mini-coroné-urbano, tudo aquilo se resumia a Respeito ou Poder ou Autoridade.

Era o fim da picada. "Ah.... Mas você não conhece essa gentinha..." foi o que me disseram, referindo-se à mulher.

Anos depois, os relatos de abusos em delegacias só aumentam. Gente que chega e espera horas. Gente que espera horas e é mandada para outra delegacia. Gente que chega na delegacia e ouve que não se pode fazer nada. Gente que é tratada aos palavrões. E viva o país do assédio moral!



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31.7.07

eu: http://www.youtube.com/watch?v=e4HiK8lw7tQ&mode=related&search=
a alanis, na minha idade
com 21 anos ela tinha lançado o jagged little pill
eu, com 21 anos, nunca saí do país, não sei cantar, não ganho dinheiro e não sei o q fazer da vida
hehe
R.: [frown]
Faltou ter nascido no Canadá...
Lá é mais fácil
Lá, a gente é menos loser
eu: hehehe
R.: hehehe
R.: E o Ronaldinho que foi jogar na Europa e já era estrela com 18 anos. Eu com 23, aqui...
Pena que a gente só pode focar uma coisa para fazer na vida... seria legal se a gente tivesse várias vidinhas paralelas e e pudesse testar as infinitas possibilidades que nos são colocadas. Tudo processado em computadores especializados...
eu: quer entrar num grande projeto de documentário?
R.: ?
eu: é a nossa chance de fazer alguma coisa decente
R.: ??
eu: vamos filmar!
R.: O quê?
eu: qq coisa!



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29.7.07

E se?

O buraco tinha uns três metros de diâmetro e já tinha se tornado o grande assunto da vizinhança naquela manhã. "Você foi ver o buraco que abriu na casa do Seu M...?". A filha dele estava varendo a escadinha e, assim que alcançou o último degrau, o chão desabou. Diziam que ela não tinha caído por sorte, muita sorte, imagina! Para muita gente aquele tinha sido o tema da primeira conversa do dia. Alguém da família levantava, ia comprar pão e ficava sabendo. Chegava em casa e botava o assunto na roda da mesa do café da manhã.

O portão da casa do Seu M. ficou aberto naquele dia e ninguém precisava tocar campainha ou bater palmas para anunciar a sua chegada. Era só ir entrando e dar de cara com o buraco. Dentro dele, uma água suja, marrom, fedida e borbulhenta. Ninguém sabia ao certo qual era a profundidade, mas com certeza era muita. Devia ser uma fossa mesmo, que foi sendo preenchida ao longo das últimas décadas. Em silêncio, seu conteúdo foi adentrando a terra e enfraquecendo a camada de cimento que dissimulava o mal-cheiroso conteúdo.

Se vivêssemos num livro do García Márquez, aquele buraco poderia ser o lugar de todas as coisas que mandamos pra longe e que, tempos depois, voltam todas de uma vez, voltam com seus cheiros, sua coloração e sua profundidade desconhecida. Poderia ser o fim do mundo, que chega aos poucos, que primeiro engole uma casa, depois um quarteirão, um bairro, uma cidade e, por fim, um país inteiro. Um fim do mundo anunciado, que antecipa os pedidos de desculpas, os agradecimentos, as pazes e as brigas adiadas, as demissões, os amores que até aquele momento se construíam aos poucos. Uma alegoria até bonita da miséria e da beleza humana. Mas, aqui, era mesmo só um buraco, e ninguém sabia ao certo o que fazer com ele, se tinha que chamar a Sabesp ou só um pedreiro.



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22.7.07

Por um país mais triste II

Cinco dias desde o indizível.

Mas os jornalistas ainda parecem ter muito a dizer, "imagens exclusivas" a explorar "logo a seguir", "depois dos comerciais" [maior exemplo disso: o programa Domingo espetacular, da Record]. Sinto vergonha.



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14.7.07

Sim, eu me pergunto por que ainda escrevo num blog que ninguém lê. Aí, eu concluo que escrevo pra mim mesma, para treinar. Será mesmo que ninguém lê? Aí, eu vejo como sou hipócrita e descubro que, na realidade, escrevo para um possível internauta perdido que passe por aqui. Escrevo para um outro que nem conheço, que nem sei se existe. Pode ser só uma figura imaginária. Me pergunto se eu ainda escreveria caso tivesse certeza de que ninguém lê. Acho que não. Ter um blog é, sempre, uma atitude exibicionista.

Seja bem-vindo, outro.



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7.7.07

Por um país mais triste

Continuemos no lado escuro...

Banalização da morte. Uma expressão banal, infelizmente.
Mas nada define com tanta clareza essa situação de suspensão, anestesia e alienação que reina nesta imensa nação luso-carnavalesca. Viu que um policial matou um segurança num posto de gasolina no Rio? Viu o número de vítimas da ação da polícia no Complexo do Alemão? Viu a foto do policial morto na capa da Folha, atingido logo depois de mandar a fotógrafa deixar o local? Viu o caso do menino João Hélio? Lembra do índio Gaudino? Dos moradores de rua mortos a pauladas em São Paulo? Do homem que foi esfaqueado nos Jardins logo depois da Parada Gay? Daquela mulher que perdeu a filha e o irmão, mortos por bala perdida num morro do Rio de Janeiro? Da família queimada viva dentro de um carro?

As pessoas estão MORRENDO. Entende? MORRENDO. Elas se vão. Não voltam. MORREM. Tudo o que elas planejaram é eliminado. Elas não verão mais, nem falarão, nem sentirão. Acabou.

Ao Houaiss:

MORTE

Acepções
■ substantivo feminino
1 fim da vida, interrupção definitiva da vida humana, animal ou vegetal
1.1 Rubrica: medicina.
cessação completa e definitiva de vida, esp. a humana

E continuamos anestesiados, passamos pelas notícias de morte, e elas passam por nós.
Deveríamos ser um país em LUTO, mas em vez disso somos uma nação animada com o Pan, entusiasmada com a eleição do Cristo Redentor como uma nova maravilha.
Quem sabe se retomássemos coletivamente o sentido do luto, da tristeza pelo outro, de um certo desespero, se chorássemos, se sentíssemos a dor, e mais dor... Quem sabe cairíamos na realidade e poderíamos realmente pensar além dos nossos próprios umbigos. Pode ser produtivo se colocar no lugar do outro, imaginar como é estar num ônibus e receber um tiro, ou dormindo e ser acordado por pessoas te espancando. Precisamos ficar tristes, sinceramente tristes, também como sinal de respeito diante de todos esses que morreram de formas tão trágicas e banais.

LUTO

Acepções
■ substantivo masculino
1 sentimento de tristeza profunda por motivo da morte de alguém
2 luto (acp. 1) originado por outras causas (separação, partida, rompimento etc.); amargura, desgosto
3 tempo durante o qual devem manifestar-se certos sinais do luto (acp. 1)
4 o fato de perder um parente ou pessoa querida; perda por morte



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2.7.07

Geléia

Faz alguns dias que o Geléia morreu. Há tempos ele andava sumido da rua. O cigarro quem comprava era algum parente, fazendo um favor. Geléia tinha 62 anos, era diabético e tinha uma história. Ganhou o apelido quando, jovem, alguém percebeu que a barriga branca exposta num jogo de futebol parecia uma geléia. Mas a melhor parte era sobre o pai dele, que decidiu ir embora e, anos depois, foi por acaso encontrado pelo Geléia numa delegacia do Mato Grosso. É estranho pensar que a entrevista com ele ainda está gravada numa fita por aí.



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23.6.07

Jogo do bicho

Raul não sabe escrever. Assina o próprio nome, sim, mas sem entender as descontinuidades entre as letras, sem saber que "a" e "u" são vogais e que o "l" vem antes do "r" no alfabeto. Mas se as letras não significam muita coisa para ele, os números são, esses sim, o supra-sumo do significado. Notinha de supermercado, placa de carro, as horas num relógio digital - Raul vasculha o mundo em busca da "milhar bonita". Para ser bonita, uma milhar precisa ser sonora: dezesseis-noventa-e-quatro, trinta-e-quatro-quinze, vinte-e-um-trinta-e-três. A milhar bonita nunca começa com zero, nunca é formada por quatro números iguais nem por duas dezenas iguais. Raul usa as milhares bonitas para jogar no bicho. Impressionante como ele decorou a tabela de quatro números para cada animal. 29 é carneiro, 59 é jacaré, 72 é porco, 73 é pavão, 81 é touro. Se uma borboleta pousa no balcão, seleciona um número entre 13 e 16 e, como sonhou com uma onça, emenda um 85 ou um 87, que é tigre, e tigre é parecido com onça. Treze-oitenta-e-cinco... Taí uma milhar bonita. "Quanto vai, Raul?". "Hoje vai dez reais". Se der na cabeça, sai uma grana até que boa.



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On the dark side for a while

O ser humano pode ser muito masoquista. Uma das formas de exercer todo esse "gostar-de-sofrer" é retornar sempre aos anos que se passaram. Você não gosta das várias pessoas que já foi, mas sabe que carrega o mesmo nome que todas elas, a mesma cara, as conseqüências. Você sente vergonha pelo que disse e pelo que fez. Será que os outros ainda sentem raiva? Será que ainda se lembram? Será que ainda mantêm a imagem que formularam sobre todas aquelas pessoas? It hurts, but unfortunately you like it. And you return, and you feel all that shit again and again and again.

*****

Quando eu abri a Folha de S. Paulo do dia 12 de junho me deparei com um texto chamado Todos os homens devem morrer, assinado por Rubem Alves. Um texto sobre a morte. Muito oportuno, pois eu tenho o hábito ingrato de devanear sobre ela bem naquele momento entre a vigília e o sono, quando não estamos suficientemente acordados nem suficientemente adormecidos. Me atraiu a idéia de que há pessoas que sabem que vão morrer e outras que não sabem:

"Os que ainda não sabem que vão morrer falam sobre as banalidades do cotidiano. Mas aqueles que sabem que vão morrer vêem as coisas do cotidiano como 'brumas e espumas'. Por isso preferem a solidão. Não querem que o seu mistério seja profanado pela tagarelice daqueles que ainda não sabem.
O corpo de um morto: presença de uma ausência. Mário Quintana brincou com sua própria morte dizendo o epitáfio que deveria ser escrito no seu túmulo: 'Eu não estou aqui...'
Se não está ali, por onde andará? Essa foi a pergunta que Cecília Meireles fez à sua avó morta: 'Onde ficou o teu outro corpo? Na parede? Nos móveis? No teto? Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta como um espelho. E tristemente te procurava. Mas também isso foi inútil, como tudo o mais'.
Também o olhar, para onde foi?"


Para onde foi? Será que morrer é como voltar no tempo e desnascer? E, então, mergulhar de novo na não-existência, eterna, muito maior do que todos os séculos que não vivemos, que as revoluções que não vimos, que as grandes guerras, os impérios, a inquisição e tudo o mais que ficou para trás? A inexistência nos precede e nos sucede. Somos um intervalinho no meio de toda a sua eternidade - e nesse intervalinho, nascemos, crescemos e morremos. Mas desenvolvemos consciência suficiente para temer o retorno. Sentimos que somos únicos, que amamos e odiamos. Ajudamos os outros ou somos punidos por mau comportamento. Pedimos e agradecemos a deuses. Louvamos, cantamos, sabemos o que é o belo e o bom.

E, para lá e para cá, muitas pessoas que não sabem que vão morrer, que ou não compreenderam a gravidade da situação ou compreenderam toda sua frivolidade. Elas se cercam de objetos inanimados, cheios de inexistência - como o corpo sem a mente -, e lhes dão significados. Querem achar um ônibus que as leve a um show de rock ou chegar em casa e experimentar um sapato novo.



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18.6.07

Vácuos

Fiquei com um espírito meio reacionário quando me vi preocupada somente em ir ao hospital e tomar soro com dramin. Nada de espírito coletivo, discussões político-ideológicas ou qualquer coisa que não dissesse respeito direto a mim mesma, só eu, eu, eu, eu. Doutor, o senhor está tentando ser engraçado, é? Eu sei: enquanto isso não passa, me sinto um lixo. Mas quando passar, vou esquecer de tudo. Enquanto isso, vocês têm o seu trabalho, uma fila de doentes para administrar, injeções a serem receitadas, internações a serem feitas e recusadas. Precisam se distrair também, ou não darão conta disso tudo. Se eu sinto que vou morrer, só sinto mesmo...

Você não vai morrer. Então, aproveita esse seu momento de racionalidade egoísta e pensa alguma coisa produtiva. Produtiva? As suas culpas! Que bobagem. Brad Pitt num filme na TV da sala de espera. Não dá para assistir isso... Nem se distrair um pouco. Reparo que a sala de espera do pronto-atendimento não tem porta. É a vida em suspensão que nunca pára. Alguém comenta que teve briga no andar de cima, na pediatria. Parece que pediram que ficasse somente um acompanhante com cada criança e alguém acabou socando e outro socado. Buscopam, plasil, dramin, dipirona.

Quantas veias você já deve ter furado hoje? Meu braço é só mais um. Mas esse mal-estar parece tão único, tão especial... Por favor, me diga que tudo isso é especial, que esse hospital só foi construído porque eu passaria mal hoje, que você conhece tudo isso por que tenho passado, que todo o mundo está prestando atenção em mim agora... Ilusão! Vomitamos e morremos sozinhos. E eu não sou a única sozinha aqui. Tem aquela senhora deitada, que acaba de vomitar no chão, aquela mulher oriental mancando, esse homem esperando uma internação há doze horas, aquela menina inconformada com o tratamento da médica, aquele que chegou numa maca, o menino que grita porque quebrou a perna, o cara com rosto tão vermelho que parece que vai explodir. Todos especiais e nada especiais. Droga, que sede.

Eles dançam na TV e parecem felizes. Sinto inveja. Deve ser para isso que serve a normalidade.



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7.6.07

Dois curtas altamente recomendáveis:

1 - The Periwig-Maker



2 - Undressing my Mother





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30.5.07

Adolescentes exibem o bumbum em sala de aula

Hoje troquei palavras com minha prima de 15 anos. Parece que a mais nova mania dos adolescentes de sexo masculino enfurnados por seis horas diárias em sala de aula é exibir os glúteos para que os colegas possam admirá-los e, eventualmente, fotografá-los e filmá-los. Fiquei pensando sobre o que diabos leva alguém a se divertir mostrando a própria bunda. Transgressão? Talvez no início do movimento levanta-e-abaixa-as-calças, quando uma alma revolucionária chocou os demais com a exibição ostensiva de seu corpo descuecado. Mas, agora, parece ser mesmo só um passe para a admiração no interior de um grupo - geralmente, dos rapazes do fundão que, é provável, serão crianças aos 30 anos.

Mas essa bunda, engraçada, exibida publicamente como sinal de descontração e bom-humor, é a masculina. Onde está a feminina? Guardadinha dentro das calças jeans ou exibida nas revistas pornográficas, enfileiradas nas bancas de jornal. Bundas sempre na mesma posição, com a mesma proporção, sem gordurinhas esquisitas, idênticas. Se é assim, um terreno de invariabilidade, o que leva os homens a comprarem essas revistas de bundas todos os meses? Não sei. Bastaria uma bunda suprema e definitiva para acabar com o comércio de revistas de bundas? Ou o que alimenta a curiosidade é o rosto que a bunda carrega, lá longe? Vá saber...

Aprendi um dia desses que um matemático chamado Claude Shannon concluiu que a novidade de uma informação coincide com seu grau de raridade e "para combater o 'ruído' da mensagem (distúrbios que a tornam pouco clara) a informação deveria recorrer à redundância (à repetição, à confirmação), sendo a boa comunicação o resultado de um compromisso ótimo entre esses três componentes: raridade, ruído e redundância" (apud Marcondes Filho, 2000: 106).

A profusão de bundas é redundante, sim, e acaba reduzindo o "ruído", ou seja, as incertezas sobre o que é e como parece uma bunda. Mas e a raridade? A novidade? Talvez exista nos detalhes, na data do exemplar de revista, na periodicidade, que dão a certeza e a tranqüilidade aos leitores (?) de que as bundas continuarão a ser mostradas.



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29.5.07

O menino, de uns sete anos, se aproximou e perguntou se eu tinha alguma moeda. Eu disse que não. Mentira. Tinha uns três reais em moedas no bolso. Dividir com ele me faria falta? Me prejudicaria? Não. Por que menti? Não sei... Um dia a gente contribui, outros não. E assim seguimos, sendo meio bons, meio maus. Talvez eu não tenha dado as moedas porque internalizei uma parcela da campanha oficial anti-esmola - dizem que a esmola prejudica a criança, que a tira da escola, que é condescendente com a exploração das crianças pelos adultos. Dizem que o objetivo é estimular uma espécie de ajuda "oficial", que parte do governo, de instituições conhecidas, de ONGs. Também dizem que o negócio, meus caros, é ensinar a pescar. Sim, o negócio: tornar nossos adultos e crianças seres solventes, que "pagam a si mesmos", que não dependem dos outros, que ganham seu próprio dinheiro.

Acho que infelizmente adquiri o hábito de suspeitar das boas intenções burocráticas institucionais/oficiais/governamentais. Sinto mais empatia pelo menino que me pára na plataforma do metrô para pedir dinheiro do que pela moça que me liga de uma instituição X solicitando minha doação mensal [Mas será que é certo reduzir isso a uma questão de empatia?]. Talvez seja a velha mania de ver para crer, e talvez eu devesse visitar uma dessas instituições e, finalmente, ver e crer. Talvez seja porque a criança que pede diretamente nos lembre um pouco que há necessidades imediatas e que no longo prazo, como dizem, estaremos todos mortos.

Me arrependi por não ter dado as moedas para o menino. Mas acabamos por entrar no mesmo vagão e, quando ele passou por mim, peguei duas moedas do bolso e entreguei a ele. Duas moedas de dez centavos. Vinte centavos. Ali naquela região não dava nem pra um pãozinho francês. Por que não dei mais? Me faria falta? Certamente não.

Mas pode ser que eu esteja errada. Pode existir um adulto explorando aquela criança. Pode ser que a esmola a deixe longe da escola e que, ao dar dinheiro a ela em vez de contribuir com trabalho ou recursos para uma instituição, eu esteja ajudando a reproduzir o status-quo e a manter a pobreza em seu lugar mais conveniente. E agora? Não quero ser hipócrita: é muito fácil para mim, que gasto meu tempo diante do computador, especular sobre as necessidades alheias.

Textos sobre o tema:

Ajuda oficial: Programa "Dê mais que esmola. Dê futuro", da Prefeitura de São Paulo

Texto de Gilberto Dimenstein sobre o programa: http://www1.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/colunas/gd110405.htm

Classe média discute, em blog do Estadão:

Mais classe média discute, em fórum do Yahoo

"Esmola favorece exclusão social", no site da Unisanta

"País ainda carece de políticas públicas para crianças", da Agência Carta Maior



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25.5.07

Personagem A: "Por que esse pessoal não pára de ter filho?"
Personagem B: "O certo é ter dez filhos. Meu pai teve dez filhos..."
Personagem C: "Dez filhos?!"
Personagem A: "Vai ter dez filhos? Quero ver você se virar pra criar, então."
Personagem B: "Eu crio..."
Personagem C: "Dez filhos?! Vai é virar tudo bandido!"
Personagem B: "Ah, pára com isso! Cê não vê um monte de casal só com um ou dois filhos, e são bandidos?"
Personagem A: "Dez filhos... Vai... Se vira pra criar."
Personagem B: "Meu pai teve dez filhos! E criou... Virou tudo bandido?"
Personagem A: "Dez filhos... Pra quê?"

***

"Lembra aquele cara que falou pra você que foi seqüestrado por engano? Foi preso, roubando carro..."

***

Eu admito! Sou uma pessoa preguiçosa. Venha a mim, ócio! O improdutivo mesmo!

***

Já viu o filme Pequena Miss Sunshine? Pode não ser tão denso e profundo como alguns dizem que é, mas é engraçado. E sua maior proeza é justamente fazer você rir diante do sofrimento daquelas personagens esquisitas e por coincidência reunidas dentro de uma singela Kombi amarela. Você vai se sair sentindo até bem, e ainda poderá dizer que viu um filme suuuper-cult.

***

Já viu O cheiro do ralo? Tem o ralo do banheirinho, a bunda e o olho de vidro. Foi a bunda que trouxe o cheiro do ralo ou o cheiro do ralo que trouxe a bunda? O olho de vidro é do pai do cara, que morreu na Segunda Guerra Mundial... Você pode sair se sentindo meio mal, mas poderá dizer que viu um filme suuuuper-cult ao quadrado.

***

Já reparou que as novelas estão colocando personagens femininas mais velhas em primeiro plano? Ó... Parece que, anos atrás, só os homens tinham o direito de interpretarem mocinhos ("galãs") após os 50 anos. Mulher morria aos 35.

***

Andei pensando... Se eu me livrar de todos os meus objetos, da TV, do rádio, do computador, dos livrinhos, dos caderninhos e canetinhas, da minha casa, deixar a faculdade, parar de ler jornal, ficar só com a roupa do corpo, sem dinheiro etc, o que sobra? Assustador, hein? O que sobra? Nada? Existe um ¿eu¿ supremo, acima dos objetos que me rodeiam? Eu o encontraria? Duvido.

***

Ela acordou desesperada de madrugada convencida de que tinha caído um inseto em seu ouvido esquerdo. Parecia que tinha alguma coisa se mexendo lá dentro. Se mexia, parava, se mexia, parava. Droga! Cotonete nele! Morreu? Parece. Voltou a dormir. Acordou preocupada: poxa, mas e se o bicho morreu lá dentro? É perigoso? Vou ao médico. Não vou ao médico - que besteira... Vou ao médico. Foi. Duas horas na sala de espera e, enfim, o médico! Olhou, olhou, disse que não tinha nada. Humpf. Mas doía um pouco... Só um analgésico deve resolver. Caso contrário, volte ao médico. Já viu casos de pessoas com inseto no ouvido? Já sim... É raro, mas acontece. Ok, brigada. No dia seguinte, mais cotonete... Examinha o cotonete... Será isso uma formiguinha? E isso é uma asinha? Gostaria de acreditar que sim e dizer que, olha só que estranho, "já caiu um bichinho no meu ouvido".



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10.5.07

Aborto? Aborto.

O papa está sentado no centro do palco, observado por milhares de jovens católicos que tomam o estádio do Pacaembu e, nas palavras do apresentador, "vão ao delírio" sempre que é pronunciada a frase "em defesa da vida" (desde sua concepção). Novamente aparece a voz do apresentador - tudo é festa, tudo é maravilhoso, tudo é emocionante.

É muito difícil - para não dizer impossível - desvincular a questão do aborto do conjunto de valores daqueles que defendem ou execram sua legalização. Para começar, é impossível estabelecer objetivamente critérios sobre o "início da vida". Na concepção? Com a formação do sistema nervoso central (meu posicionamento)? No nascimento? Não adianta: cientistas não têm como responder isso. Você vai ter que escolher. Mas não se anime: trata-se de uma questão bem mais complexa do que encontrar uma resposta para essa pergunta.

A discussão sobre o aborto tem sido, ao que me parece, um tanto deslocada. Quando as perguntas centrais são, na realidade, "É justo que uma mulher que tenha abortado seja considerada criminosa?" e "Caso uma mulher decida abortar, ela deve ser condenada a fazê-lo (sim, porque ela de fato o fará) em condições precárias, pondo em risco sua própria vida?". É triste que, no fim, tudo esteja simplificado a meramente ser a favor ou contra o aborto.

Boa parte dos textos publicados na mídia contrários à legalização do aborto partem para um golpe baixo: perguntam se ele, caro leitor, gostaria de ter sido abortado pela mãe. Nos convidam a imaginar como seria se nossas mães nos tivessem abortado. Resposta simples: não seria. Mas o que essa argumentação esquece é que, se nossas mães quisessem realizar um aborto, elas o teriam feito - tomando remédios abortivos, usando agulhas de crochê... Descriminalizar e legalizar o aborto não levará a uma epidemia de abortos! Oras, como se as mulheres grávidas fossem tomadas por um impulso masoquista de se submeter a um procedimento como esse por um mero prazer mórbido.

E, sim!, quem é contra o aborto poderá continuar a sê-lo: ninguém vai ordenar "aborte!", pegando as mulheres grávidas pela mão e levando-as ao hospital herege mais próximo. Agora, veja se isso é justo: os que se auto-intitulam "defensores da vida" estão muito dispostos a ordenar em alto e bom som: "não aborte!".

Fornecer condições adequadas para quem deseja realizar um aborto é, antes de tudo, restituir ao menos parte do corpo feminino às próprias mulheres. Corpo este que é subjugado por um discurso machista que estabele uma idealização da maternidade e forja um consenso segundo o qual ser mãe é a condição da máxima realização feminina.

Porque é extremamente irritante ouvir homens discursarem de maneira inflamada sobre o que as mulheres podem ou não fazer, devem ou não fazer. Se realmente for decidido que o melhor é realizar um plebiscito ou um referendo, que somente as mulheres sejam convidadas a votar. O provável é que, ainda assim, a causa da legalização seja perdida. Mas, de qualquer forma, teremos dado um passinho rumo à libertação do corpo feminino: ao menos às mulheres será dado o direito de decidir sobre seus próprios assuntos sem uma intervenção ostensiva (ainda que implícita) masculina.

Ah, e há aqueles que, com medo de argumentarem com base em sentimentos e serem tachados de irracionais, dizem que o aborto não deve ser legalizado antes que toda a população seja conscientizada sobre o uso de métodos anticoncepcionais. Ok. Enquanto isso, abortos clandestinos continuam a ser feitos e ganha espaço uma idéia hipócrita e elitista, que destitui os mais pobres de seu direito de escolha.

Para fazer coro: legalizar o aborto é uma questão de saúde pública!

Jovens dançam para o papa. Tudo é lindo, tudo é maravilhoso.

Herr Ratzinger, nem adianta ameaçar: eu já me "auto-excomunguei" há muito tempo.
E se o governo brasileiro aceitar suas propostas arcaicas de oficializar privilégios à Igreja, então estarei disposta a me mudar para o planeta extra-solar mais próximo.



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16.4.07

No mundo do ter que

Tem que dormir tarde e acordar cedo, estudar, se atualizar, ler, revistas, literatura, jornais, ter uma alimentação saudável, verduras, legumes, frutas, fibras, exercícios físicos, não exagerar, não se frustrar, preservar o meio ambiente, reciclar, tomar banhos rápidos, ter um cachorro, pagar convênio, previdência privada, ter filho, dar um irmão ao filho, pagar escola, judô, natação, inglês, falar inglês como um nativo, melhor se tiver também espanhol, francês, alemão, lembrar em quem votou, assistir ao horário político, ver filmes do circuito artístico, namorar, sexo três ou mais vezes por semana, ficar feliz, ficar triste mas otimista, dirigir com seis olhos, trocar de computador, ler bem, escrever bem, raciocinar bem, falar bem, fazer muitas coisas mas não se perder, marcar muitos compromissos mas não se esquecer, chorar uma vez por mês, usar creme para rugas, usar creme para estrias, creme para os cabelos, depilação, dar o máximo de si no trabalho, ser pró-ativo, vestir a camisa, ser educado, dar conta, administrar seu tempo, ir em busca de auto-conhecimento, terapia se necessário, remédios se necessário, tomar todos os detalhes como prioridade, ser uma mãe ou um pai exemplar, não invejar, não desejar o mal, oferecer a outra face mas ser firme, impor-se, respeitar a liberdade alheia, respeitar a própria liberdade, comprar tinta para a impressora, um novo barbeador, cuidado que suas roupas estão velhas e desbotadas, combinações, nada de verde com verde, nada de somente preto, dar presentes, dar presentes a si mesmo, ter paciência mas não abaixar a cabeça, ter opinião, expor a opinião, militar, abraçar uma religião, compreender a teoria evolucionista, se formar, fazer pós-graduação, ser equilibrado, ensinar seu cachorro a fazer cocô no lugar certo, amar seu cachorro, amar sem odiar, odiar somente o ódio, nada de perder a cabeça, chegar no horário, sair um pouquinho depois, pagar aluguel, comprar uma casa, comprar uma casa melhor, ser bem-sucedido.

Todo um mundo fadado a morrer insatisfeito.



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19.3.07

Reflexões sobre o salto alto

O mundo da moda - e ele não está sozinho nisso - opera por naturalização. Parece natural que a calça de alfaiataria inspire mais respeito do que o jeans. Parece natural que, ao trabalharem numa "grande empresa", as mulheres optem pelo salto alto em vez do tênis. Salto alto - uma invenção que passou pelos pés de homens e mulheres, mas agora se firma como acessório exclusivamente feminino.

A popularidade do salto alto é uma prova de que o conforto (entendido aqui como a ausência de dores e incômodos físicos) ainda não é lá um grande valor para a maioria dos seres humanos. Afinal, começar a usar salto alto demanda um significativo grau de esforço, em prol do equilíbrio, do andar esteticamente agradável, dos calos, dos dedos apertados e das dores nos pés, nas pernas e nas cadeiras. O corpo protesta contra essa intervenção. Se reage com dor e incômodo, é para avisar que algo não vai bem. O salto alto, portanto, é antinatural (sim, como muitas outras coisas).

O salto alto é um fenômeno cultural, com aparência de natural simplesmente porque nos precede como hábito. É comum ouvir, apenas para citar alguns exemplos, que "mulher de salto alto é mais elegante", "mulher de salto alto é mais sensual", "mulher de salto alto transmite mais poder". Está, portanto, associado a características eufóricas na nossa cultura: elegância, sensualidade e poder - se bem que este último mereça uma ponderação e uma dúvida: será mesmo poder ou, na verdade, submissão com aparência de poder? Afinal, o uso de saltos altíssimos é praticamente obrigatório na indústria pornográfica voltada ao gozo masculino.

Ok, o salto alto é anti-natural, mas está associado a uma certa noção de beleza. Beleza, dizem os cientistas e suas narrativas, é um elemento importante no jogo da evolução natural. Dizem que, ao longo da trajetória da nossa espécie, os indivíduos mais "bonitos" foram justamente os mais aptos a transmitirem seus genes adiante. Essa beleza dos cientistas é, por assim dizer, um tanto objetivada: baseia-se em critérios como grau de simetria e aspecto da pele, que indicariam estados mais saudáveis e, portanto, mais compatíveis com o objetivo de transmissão de genes e de reprodução da espécie. Os bonitos seriam os mais capazes de terem filhos, os mais disputados pelos indivíduos do outro sexo e, também, os que teriam prerrogativas maiores de escolha.

Uma mulher bonita e um homem bonito seriam apenas isso: bons reprodutores. Nós, seres culturais que somos, criamos artifícios para acentuar essa característica de "beleza". O salto alto é uma delas. Era o que eu, sortuda passageira de metrô que havia achado um assento, pensava enquanto olhava para aquela profusão de pés em meio ao aperto do vagão. Pés nas alturas, pés apertados, alguns talvez doloridos, pés machucados. É evidente que as mulheres insistem no salto alto apesar do desconforto. E é evidente que um dos ambientes por excelência do salto é o trabalho. Sim, o trabalho... Aquele que costuma ser visto como contraponto da velha "vocação para a maternidade".

E assim seguem as mulheres, travestidas de boas reprodutoras, ao trabalho. É possível que, no nosso jogo cultural, o salto tenha se perdido desse seu sentido e hoje seja apenas isso: o salto alto, fetiche, simples marca habitual, simplesmente valorizada como costume, socialmente confortável em termos de se evitar o estranhamento. Mesmo assim, não deixa de ser fisicamente desconfortável e uma incógnita para mim - assim como os brincos, as calças justas, os tecidos de renda...



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18.3.07

A cidade é o lugar do próximo e do distante, já dizia Georg Simmel. Próximo fisicamente e distante socialmente. Esmagado, empurrado e encoxado dentro do ônibus, com o cheiro esquisito da respiração de alguém lhe surgindo do lado direito, um pouco acima do nariz. Tentava se concentrar nas próprias fantasias, mas não conseguia. Era um cheiro talvez de uma infecção dentária ou nasal, se é que isso existe. Isso não pode ser saudável... Ou será que estava se tornando uma pessoa fresca, burguesa? Porque chegava em casa e lavava as mãos, evitava se sentar com a calça bolinada na cama e tinha nojo do próprio cabelo, onde com certeza iam parar alguns respingos de tosses e espirros vindos de pessoas mais altas. Mas não queria se tornar um mauricinho. Estava num embate. Haveria um lugar definido para os fluidos corporais na luta de classes?



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Por que será que sua língua sempre saía queimada de um café ou de um chocolate quente? Fora assim sua vida inteira, com minutos dedicados à arte de assoprar, assoprar até que esfriasse. Não teria problemas com isso não fosse o incoveniente que a língua sensível lhe causava agora na vida adulta. Saía com seus clientes para um cafezinho (convidado pelos últimos, claro) e lá ficava a esperar o café dar uma esfriada, enquanto o cliente, numa sensação de estranhamento, prestava mais atenção à xícara parada do que à conversação. Outras vezes, ao perceber a pressa do cliente, nosso amigo dava uma bebericadinha e, merda, queimava a língua. Geralmente só a pontinha. Com o trauma, desistiu da bebericada e passou a assoprar. Assoprar alimentos quentes, no mundo adulto, é imperdoável. Ele tinha certeza de que já havia perdido um emprego por causa disso. Um dia, com raiva de sua língua sensível e num impulso masoquista, decidiu botar todo o café na boca e fazer bochechos. Queimou-se sua língua toda, que ficou coberta por bolinhas vermelhas e insensível. No dia seguinte, um fio preto - que não saía - lhe cobria as laterais do órgão. Foi ao médico e recebeu a sentença: é necrose. Necrose? É. Passa? Acredito que sim. Pode não passar, então? É, pode... E aí? Você vai perder a língua. ! Vai sim. ! Sua língua vai morrer antes de você. ! Ah, não fique com essa cara. Todo mundo tem uma parte que morre primeiro. A minha foi o apêndice.



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14.3.07

Maria gostava de ironias. Gostava tanto que as usava sem perceber, o tempo todo, em qualquer momento, com qualquer pessoa. Maria ria das próprias ironias. Ria para si mesma, num contentamento egocentrado, sem perceber se os outros riam também. No início eles riam, sim, era fato. Depois, pararam de rir - algo que muito provavelmente coincidiu com o começo do vício de Maria pelo dizer o que não se quer dizer apenas para apontar o ridículo ou o vazio do que se dizia. Alguns começaram a se encher.

Alguns, cheios, perceberam que toda aquela profusão de ironias (ou seria sarcasmo?) não era ofensiva a ninguém, e sim um meio de auto-afirmação. Outros não perceberam, ficaram ofendidos e brigaram feio com Maria. Maria entendeu tudo isso e aumentou a freqüência dos seus comentários irônicos auto-depreciativos. Não adiantou. Ela já tinha perdido seus créditos diante das outras pessoas. Aí, Maria calou a boca, emudeceu, só ouvia. Se não podia falar e escrever sem ironias, que não falasse nem escrevesse de maneira nenhuma. Naquele mundo, a ironia adquiriu um sentido pejorativo, foi moralmente banida e atirada aos leões racionais e denotativos.



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9.3.07

O dia-em-que-mr-president-visitou-são-paulo

Mr. Presidente provavelmente já tinha desembarcado em São Paulo quando eu taquei SBP na mosca e, covardemente, joguei um pé de havaiana sobre ela. Nem agonizou. Finda a mosca, findo o zunzunzun irritante que ela se dedicava a fazer em torno da minha cabeça naquele quarto quente. Provavelmente a mosquinha vinha pra cima de mim jogada pelo vento de ventilador que ia e voltava. Mesmo assim, não fui compreensiva e minha raiva definiu o triste fim do chato e mal-agourento bicho. Não lembro agora... Ou melhor, não sei o que foi que Pablo Escobar fez com a mosca que lhe rondava a cara algumas horas antes de ser pego e morto pela polícia. A tia tinha certeza (foi o que vi no documentário) que era coisa ruim, destino.

E mesmo não acreditando nessas coisas, odeio quando moscas teimam em dividir o mesmo espaço comigo. Poxa, imagine se eu acreditasse nessas coisas... Estaria agora preocupada com o ruim que está por vir. E imagine se realmente viesse. Seria muita coincidência. E imagine se acontecesse de novo com outra pessoa. Mais coincidência ainda.

Mas não é que me lembrei da mosca quando alguém disse que fulano estava armado e ameaçando o motorista da lotação! E o meu dia-em-que-mr-president-visitou-são-paulo começou péssimo, com uma batida numa kombi, correria, montoeira de gente no fundo do micro-ônibus, ameaça de tiro, porta teimosamente fechada e trânsito na Radial Leste. Olha, Mr. President, o senhor cuja vida vale mais do que a minha, fui do pânico à raiva em dez minutos, depois de conseguir entrar num ônibus rumo ao metrô e dar com aquele bando de carro tentando ir pra não sei onde mas não conseguindo. Arma eu não vi não, mas tem gente que diz que viu. E a moça com a menina no colo me mostrava a mão. Tava até tremendo, e com criança a coisa piora. Ele podia matar a gente agora. Imagina! Meu deus! Imagino sim, colega. Imagino a notinha no jornal, provavelmente com uma chamadinha na metade inferior da capa, um tanto distante da manchete do Mr. President. Lembra quando o ex-papa polonês visitou o Brasil? Teve uma chacina no Rio.

Mosca chata, desculpa.



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25.2.07

Teve uma vez que ela achou que quebrar o arame entre as bolinhas do tercinho era mau sinal. Deus estava nervoso. Resolveu aumentar o número de terços que rezava de dois para cinco. Aí, lembrou que era a única católica de verdade naquela família, a única que salvava a alma indo à igreja, a única com ligação direta ao reino dos céus e a única, portanto, com passagem sem escalas para a vida eterna em paz. Como rezava tantos terços, como ia tanto à missa, concluiu que Deus lhe dava alguns cartões-bônus, os quais ela poderia distribuir aos familiares desajuizados - esses, que em vez de levantarem cedo no domingo e irem prestigiar o ritual católico, resolviam dormir até mais tarde e encher o bucho na churrascaria. Começou a rezar um terço diário para cada um deles também, pedindo pela saúde, pela felicidade, pelo amor, pela segurança e para abrir a cabeça daqueles que estavam perdidos em consultórios de psiquiatras, testes vocacionais e limites de cheque especial. E era preciso rezar pela casa também. Casas, com "s". Mais terços, mais frases decoradas, mais pedidos e agradecimentos. Mas ela não era a única, era uma em milhares. Nem quando Deus apareceu em sonho para lhe dizer que estava ficando louco com todas aquelas vozes que rondavam sua cabeça 24 horas por dia, ela acreditou no seu desatino. Em vez disso, adicionou o Criador a seu quadro de beneficiários, e começou a rezar um terço pela sanidade dele. Ele descobriu que o bom e velho fone de ouvido tinha alguma serventia, decidiu cair na estrada com sua guitarra e realizar seu primeiro show como bluesman num bar duma cidadezinha da Califórnia.



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4.10.06

droga de blog!


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Sobre o suicídio

Mesmo as tragédias podem dar algum dinheiro. Tá pensando em se suicidar? Vá ao oráculo Google e busque por "suicídio". À esquerda da tela, uma seqüência de sites que informam o que é suicídio (!), a origem etimológica da palavra, as diferenças entre o suicídio feminino e o masculino.

À direita, os super links patrocinados! Problemas, desânimo? Há uma solução para sua vida!. Fale com V... psicóloga para terapia familiar ou individual. Então, suposto suicida, suas opções são as seguintes: conhecer uma religião, deus, as energias vitais e positivas, as mensagens de esperança, ou pagar algumas dezenas de reais para um profissional liberal.

Estranho que ninguém se dispõe a ajudar no serviço. Nenhum especialista para indicar o método mais indolor, mais barato e mais rápido. Nenhum site descrevendo as quantidades necessárias de químicos letais.

Mas um dia o mundo evolui...



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22.9.06

"...Devo postar no blog uma lista de 6 coisas que as pessoas não sabem sobre mim ou suportar um ataque de um coelho gigante com um tiro na cara, igual ao Donnie Darko, quando eu estiver lavando os cabelos de olhos fechados. Depois, tenho que repassar a praga para 6 blogueiros."

1. Já procurei um psiquiatra e ainda tomo remédios de tarja preta.
2. Eu penso na morte pelo menos uma vez por semana e acho que só os idiotas se matam enforcados.
3. Eu tenho medo de gente. Medo mesmo.
4. Já entupi uma pia com o meu vômito e tive que me desdobrar para desentupi-la.
5. Meu maior trauma de infância foi ouvir de uma professora que ela tinha vontade de me socar.
6. Sou uma estraga-prazeres. Por isso, não vou mandar essa praga para ninguém. Mas vou lavar os cabelos de olhos abertos.




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20.8.06

São Paulo é uma cidade de pessoas cansadas. Cansadas de esperar, de trabalhar, de estudar, de andar, de viver, de responsabilidades. Aí, surge uma acomodação que vai muito além do egocentrismo. Se alguém as incomoda no ônibus, elas ficam caladas. Se alguém as trata mal, elas ficam caladas. Se alguém joga lixo na rua, elas ficam caladas. Não sei se é medo ou indiferença - e olha que eu sou uma dessas pessoas cansadas.



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16.8.06

Coisas que aprendi no ambiente universitário:

1. A algumas pessoas é dado o direito de terem suas declarações estúpidas relevadas. 2. A outras não.
3. O que decide seu direito de falar abobrinhas e passar batido é sua influência num grupo (seja de pessoas engajadas, seja de uma sala de aula, seja de professores influentes, seja de pessoas extrovertidas).
4. Muitas discussões não têm outra função senão mostrar para os egos em embate que, sim, eles são capazes de convencer os demais e influenciar pessoas.
5. "Ter moral para" é uma moeda de troca. Funciona assim: um grupo influente assume para si o caráter de guardião da verdade, moral e dos bons costumes. Aí, quem está dentro desse grupo "tem moral para" fazer alguma coisa específica (do tipo discutir sobre educação, ensino, capital externo). Quem está fora, não "tem moral para" tal, mas tem o direito de calar a boca. Agora, se você, ser com o direito de calar a boca, passar a obedecer o grupo que começou com toda essa baboseira, você vai "ter moral para" dizer aos outros que eles não "tem moral para" não calarem a boca.
6. A maioria das pessoas nesse ambiente não é arrogante. Mas a minoria que o é parece constituir um movimento tão organizado que se passa por maioria e distribui seu asco pelos corredores.
7. Ah, a Europa... A Europa é aquele lugar onde vivem pessoas civilizadas, que falam línguas civilizadas, usam drogas civilizadas e se vestem de maneira civilizada. Então, se você quiser realmente aprender a viver e ter idéias civilizadas, a Europa é o local de redenção. O Brasil? Credo! Não se aprende a melhorar o Brasil sem ir para a Europa.
8. Pessoas que têm carro, não trabalham e cujos pais lucram com títulos públicos e investimentos rentáveis aplicados em algum banco com serviço especial são chamadas "comunistas".
9. Faculdade não é para estudar. Quem estuda, senta a bunda na cadeira e ouve o professor, é um desmoralizado, ou seja, não tem "moral para", ou seja, é um excluído do sistema monetário vigente no ambiente universitário.
10. Em algum momento um grupo do ambiente universitário irá querer mudar o mundo. Ou melhor: o mundo não - só lugares como o Brasil, a África e o Sudeste Asiático. Tudo isso com base numa revolução comunista-burguesa, dos iluminados que conhecem a Europa e que podem doutrinar os não-civilizados na doutrina da civilização suprema. Nesse mundo pós revolução comunista-burguesa, não haverá dominação, não haverá consumo, não haverá injustiças. Haverá, é claro, divisão do trabalho. Mas as pessoas poderão desenvolver seus reais anseios! E aqueles que fizerem o trabalho intelectual e administrativo não exercerão nenhuma dominação sobre aqueles que se dedicarem ao trabalho manual. Considerar a realidade-real-esta-em-que-vivemos? Que besteira...



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14.8.06

No balcão da padaria

É, fia, é verdade. Fui seqüestrado por engano. Tava com a minha esposa numa festa lá no Parque S... Calça jeans e camisa branca - a mesma roupa do filho de um dono de supermercado. Aí me levaram. Não, minha esposa não. Ah, eles descobriram que tinham pegado o cara errado. Vixi, mas apanhei... Tinha uma moça lá... É de quem tenho mais raiva. Ela me deu uns quatro tapões na cara. Ah, deve fazer uns oito anos... Fiquei dois dias com eles. Aí, vendi minha moto, meu carro, meu primo pegou dez mil reais emprestado. Trinta mil reais para eles me soltarem. Me largaram lá em Itaquá, desnorteado. Ainda ficavam brincando com o revólver, apontado ele para a minha cara. Que merda. Não desejo isso pra ninguém. Se tão presos? Nunca mais ouvi falar. Não fiz nenhum tratamento não. Na época ficava com medo. Saía com minha esposa e ficava olhando para os lados. Mas aí percebi que nada é maior que deus, né? Acho que hoje tô tranqüilo. Você não lembra? Era uma época que tinham vários seqüestros lá no Paque S... Ah, você tá indo? Vai com deus.



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9.7.06

O ser humano que vivia no futuro tinha uma memória horrível. Afinal, o passado não importava.
O ser humano que vivia no futuro tirava férias enquanto trabalhava e planejava os dias de folga.
O ser humano que vivia no futuro trabalhava quando saía de férias, porque haveria muita coisa a fazer no mês seguinte.
O ser humano que vivia no futuro nunca dava a última mordida no lanche, porque, para o ser humano que vivia no futuro, o lanche sempre acabava na penúltima mordida.
O ser humano que vivia no futuro não tinha domingo, nem feriado, nem noites bem dormidas ou dias bem vividos.
O ser humano que vivia no futro não pagava pra ver, ele via pra pagar.



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4.7.06

Não quero fazer deste blog um diário, mas como não tenho obtido muito sucesso nisso - e como essa história é muito insólita - vou contra a minha vontade:

Havia poucas pessoas no ônibus, naquele horário de almoço de segunda-feira. Não sei há quanto tempo ele estava lá, mas só notei sua presença quando ele começou a gritar, grunhir, xingar e se contorcer. Doido? Bêbado? Sei lá. Sei que não seguia os padrões normais de comportamento em transportes coletivos. Sua atividade favorita no momento era atirar impropérios a mulheres na rua: "Sua arrombada!", "Sua puta!". Enfim... Ah, o sexismo novamente...

Primeira quase-improbabilidade: O homem tinha um pino saindo do cotovelo! Nunca tinha visto isso antes - muito menos uma pessoa ameaçar as outras com seu pino no cotovelo! E ele mostrava o pino, e dizia que era uma arma, e se dirigia às pessoas sentadas nos últimos bancos. Eu, que estava sentada logo atrás dele, não fui vítima de sua atenção. Para falar a verdade, acho que ele nem me via - a proximidade que apaga.

As pessoas foram descendo, o ônibus foi ficando cada vez mais vazio. O bêbado/louco/anti-social resolveu, então, que o banco ao lado do meu, no lado oposto do corredor, lhe satisfaria melhor. E lá ele se sentou, e eu fiquei o tempo todo olhando para fora da janela (encará-lo seria um passaporte para a participação em sua falta de sentido).

A viagem continuou. Chegou minha hora de descer. Inevitavelmente passei perto dele. E lá estava ele, colocando em prática a segunda quase-improbabilidade! Se masturbando, com as coisas-que-devem-ficar-escondidas à mostra. Mas, beleza, eu ia descer mesmo. Até que a cobradora me perguntou: "Ele tá com o troço pra fora?" "Sim." "Ah, então era disso que a mulher tava reclamando. João, o bêbado tá colocando as coisas pra fora! Chama a polícia!" Eita, não era dessa vez que eu sairia do ônibus. Mas a polícia estava logo à frente, numa viatura. O motorista buzinou e buzinou até que a viatura parou e o ônibus também.

E, então, depois de palavrões e de caminhar pelo corredor com as coisas-que-devem-ficar-escondidas balangando, o bêbado/doido/anti-social disse que iria com a polícia sim. Mas, antes disso, botou tudo pra dentro e fechou o zíper da calça. Impagável.



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2.7.06

Só para dizer que...
A vida. Ah, a vida é uma grande sádica.



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28.6.06

Hoje a Selma estava usando uma jaqueta rosa-choque. Lá estava ela, andando devagar e olhando para o chão enquanto tomava uma garoinha fina e gelada na cabeça. Cabeça desregulada, dizem alguns. Ainda não consegui descobrir se ela é mesmo louca - ixi, fora que já esqueci há muito tempo os limites da loucura e da não-loucura, que alguns chamam de "razão". Sei que a Selma quase não come. Só anda, anda, anda, de manhã, à tarde e à noite, bebe café e fuma cigarros de um real. Está magra, muito magra. "Como não pega uma tuberculose?". "Tem saúde de ferro".

Uma cadela prenha acompanha Selma todos os dias. Hoje não. Acho que a barriga tá pesada demais (e o estômago muito vazio) para ficar gastando energia à toa. "Onde ela terá seus filhotes, nesse frio, sem comida? E a dor? Coitada". Será o útero uma desgraça? Condição feminina, dominação masculina, hormônios, genes egoístas, cultura.

Dizem que a Selma ficou assim de tanto usar drogas. "Ela era muito bonita, mas não dava bola pra ninguém aqui do bairro. Aí, ela se envolveu com um bandido... Ele levou ela embora e a encheu de droga. Aí, ela voltou, desse jeito...". Também dizem que ela tem duas filhas adultas, que a colocam para dormir num quartinho separado, no quintal. Ela sai para andar de manhã, quando a casa ainda está fechada, e volta só à noite, quando a casa já está fechada. "É que a Selma recebe auxílio-doença. Mas as filhas ficam com todo o dinheiro, não dão nem comida para a mãe. Como podem fazer isso?! Aí, se a Selma morre, aí sim que elas ficam sem dinheiro."

Um dia a Selma chegou e perguntou o que eu tinha. Eu tinha uma dor de cabeça. E ela ficou olhando para a minha cara, enquanto esperava um copo doado de café com leite. "Dor de cabeça, é?".



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20.6.06

I just can't stand the ring... I just can't stand the dial... And talking. Hey, do I know you? Do you know me? What will you say to me? And will I offend you in a non-intencional way? After that, after having nothing actually done, I just stay here, fighting my tendency to find something socially or professionaly or mentaly profitable to do... I have to be smart! I have to find my way to the first place! But I was not born to be first. I was born to be me. But I don't remember who I am anymore. But I wasn't born to be anything. I was born just to be born, live and die. And I criticize myself, and I criticize people around me, and I look at myself, and end up in self-criticism again. Welcome! And I look, and I see an intelectually designed movie, and I think about something else... Should I feel guilty for living a life with no planing, with no future in the present? And I finish a book, and I fight the pseudo sore throat, and I call someone I know, and I have nothing to say, and I sit down again, and look at the wall... And remember that "all in all, we're just another brick in the wall"... But I insist, although I don't want to, on thinking about the best way to make the wall higher and higher... And I feel over-tired, and I meet one of my little diseases, and it comes, and I have a headache, or a cold, or a fast lapse of sight, or a pain in the stomach... And, finally, I take some rest... But it will go away, and time will keep on murdering. "So, just keep me in the state, just leave me purgatorrying"... Can anyone just open the window?



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17.4.06

Para lá e para cá - A mente do ansioso

Seis e meia da manhã... Ainda tenho uma hora e meia para dormir. Dorme, dorme, dorme. Vira. Putz, como vou fazer? Vão achar defeitos, e vou precisar ligar para várias pessoas... Isso durante a manhã. Dorme, dorme. Vira. Ou talvez não achem defeito. É... Justamente quando fico assim, não acham defeitos. Só acham quando eu não espero. Vixi... Mas se eu não esperar que apontem um defeito, aí sim vão apontar um. Dorme, dorme. Nossa... Que fome. Então... Melhor eu esperar pelo erro. Nossa! Mas que bobagem! O que vale é o acaso. Como posso controlar o futuro apenas considerando as possibilidades idiotas da minha cabeça? Mas vão achar um erro. Eu sei que vão. Sete horas. Putz... Além de estressada, vou levantar com sono e azia.

Dorme, dorme. Não durmo. Será que eu deveria tentar Yoga? Besteira... Ou não... Alongamentos fazem bem. Acho que vou me alongar agora; assim, vou estar mais calma para recomeçar meu trabalho quando eu chegar lá, abrir minha caixa de e-mails e ficar a par de todas as dúvidas. Não, talvez isso não aconteça. Droga! Tô perdendo a imparcialidade... Não sei avaliar se está bom ou ruim. Droga!

Sete e meia. Vou levantar, ir pro trabalho, chegar mais cedo e não encontrar nada na minha caixa de e-mails. Ufa! Vamos lá. Faço o que tenho que fazer, peço a opinião dos outros, beleza, vou embora.

Quatro da tarde. Droga! Esqueci de reler o texto mais uma vez... Será que deixei passar algum erro? Erro num texto já publicado é mil vezes pior. Vou ligar para alguém e pedir que verifiquem se o nome do pesquisador tá certo - putz, errar nome é gravíssimo. Vou ligar.

Nossa... Será que falei corretamente o nome? Sei lá... Às vezes, por um lapso, troquei Daniel por Eduardo. Não, não fiz isso. E se fiz? Ah, desencana... Você tá ficando neurótica. Não vou abrir e-mail durante este feriado.

Domingo à noite. Preciso ver meus e-mails, ou não durmo hoje à noite... Será que alguém mandou alguma mensagem criticando o texto? Droga! Vamos lá... Azia... Nada de e-mails... Ufa! É... Acho que exagero.

Segunda à tarde. A crítica chega: o título de capa tá óbvio demais, pouco informativo. Eu sabia! Sabia que alguma coisa ia dar errado! E justamente onde eu menos esperava: no título. Eu nem tinha pensado nele! Da próxima vez, vou expandir minha ansiedade para os títulos... Aí, quem sabe, todas as coisas corram bem. Agora, é esperar por mais críticas.



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27.3.06

Tartaruga, tartaruga...

A tartaruga estava lá, no espelho d'água da Praça do Relógio. Era grande, esverdeada. Nossa, mas pode a tartaruga viver neste laguinho sujo, cheio de sacolas plásticas?

Ligamos no Ibama:
"Ah, a gente não recolhe. Vocês têm que trazê-la até aqui. É perto do HC. Sabe onde fica?"
Pegar aquela tartaruga grande e arisca, jogá-la num balde e levá-la de ônibus? Fácil, fácil...

Ligamos no Hospital Veterinário da USP:
"Olha, não sei o que fazer. Mas ela não tá no laguinho? Então, deixa ela lá..."

Ligamos na Prefeitura do Campus da USP:
"O quê? Ainda não tiraram essa tartaruga de lá?! Peraí, que vou te transferir."
"Tartaruga? Sério? Tenta ligar do Hospital Veterinário..."


Pobre tartaruga. A cidade não sabe o que fazer com você.



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18.3.06

I lost my faith in the summer time,
Cos it don't stop raining


Versos ideais para a noite de uma quarta-feira chuvosa - aquela, na qual você tem a primeira oportunidade de ver o show de uma de suas bandas favoritas.
Tsc. Tá bom. A banda favorita.

Sim, também foi um bom show. Mas não sou de empolgação. Então, aqui vai minha avaliação de pessoa-pouco-empolgada:

Nota, de 0 a 10: 8,0
Melhores coisas: a guitara noeliana, a bateria filha de Ringo Star, Morning Glory, Aquiesce, o vocal de Liam Galagher (do qual, confesso, não esperava muita coisa)
Piores coisas: a chuva fria, o preço, a pouca duração do show (só 1h40!), o lugar-comum que é o coro de Don't look back in anger

Moral da história: Oasis é, sim, uma banda respeitável.



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10.3.06

Uma matéria muito interessante da Agência Carta Maior:

Em todo o mundo, mulheres seguem invisíveis na mídia





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Não... Talvez as discussões não sejam estéreis. Talvez o grande objetivo seja convencer quem está calado e indeciso. A opinião da pessoa com quem se discute é, portanto, secundária. O que importa é o público.

Quem sabe.



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As pessoas rara e dificilmente mudam de opinião. Por isso, as discussões costumam ser, na maioria das vezes, meros exercícios de retórica e auto-afirmação. Quase todas as discussões são estéreis e, no máximo, adicionam uma palavra ao vocabulário já extenso de alguma das partes.

Estéril também é usar RinoSoro quando o nariz já está acostumado a substâncias vasoconstritoras.



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