Anti-Similar |
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Detritos mentais de uma pessoa comum e um pouco anormal.
"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo."
Raul Seixas
"Sou trezentos / Sou trezentos e cinqüenta"
Mário de Andrade
Silêncio?...
...Há pouco tocava The Doors...
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19.3.07
Reflexões sobre o salto alto O mundo da moda - e ele não está sozinho nisso - opera por naturalização. Parece natural que a calça de alfaiataria inspire mais respeito do que o jeans. Parece natural que, ao trabalharem numa "grande empresa", as mulheres optem pelo salto alto em vez do tênis. Salto alto - uma invenção que passou pelos pés de homens e mulheres, mas agora se firma como acessório exclusivamente feminino. A popularidade do salto alto é uma prova de que o conforto (entendido aqui como a ausência de dores e incômodos físicos) ainda não lá um grande valor para a maioria dos seres humanos. Afinal, começar a usar salto alto demanda um significativo grau de esforço, em prol do equilíbrio, do andar esteticamente agradável, dos calos, dos dedos apertados e das dores nos pés, nas pernas e nas cadeiras. O corpo protesta contra essa intervenção. Se reage com dor e incômodo, é para avisar que algo não vai bem. O salto alto, portanto, é antinatural (sim, como muitas outras coisas). O salto alto é um fenômeno cultural, com aparência de natural simplesmente porque nos precede como hábito. É comum ouvir, apenas para citar alguns exemplos, que "mulher de salto alto é mais elegante", "mulher de salto alto é mais sensual", "mulher de salto alto transmite mais poder". Está, portanto, associado a características eufóricas na nossa cultura: elegância, sensualidade e poder - se bem que este último mereça uma ponderação e uma dúvida: será mesmo poder ou, na verdade, submissão com aparência de poder? Afinal, o uso de saltos altíssimos é praticamente obrigatório na indústria pornográfica voltada ao gozo masculino. Ok, o salto alto é anti-natural, mas está associado a uma certa noção de beleza. Beleza, dizem os cientistas e suas narrativas, é um elemento importante no jogo da evolução natural. Dizem que, ao longo da trajetória da nossa espécie, os indivíduos mais "bonitos" foram justamente os mais aptos a transmitirem seus genes adiante. Essa beleza dos cientistas é, por assim dizer, um tanto objetivada: baseia-se em critérios como grau de simetria e aspecto da pele, que indicariam estados mais saudáveis e, portanto, mais compatíveis com o objetivo de transmissão de genes e de reprodução da espécie. Os bonitos seriam os mais capazes de terem filhos, os mais disputados pelos indivíduos do outro sexo e, também, os que teriam prerrogativas maiores de escolha. Uma mulher bonita e um homem bonito seriam apenas isso: bons reprodutores. Nós, seres culturais que somos, criamos artifícios para acentuar essa característica de "beleza". O salto alto é uma delas. Era o que eu, sortuda passageira de metrô que havia achado um assento, pensava enquanto olhava para aquela profusão de pés em meio ao aperto do vagão. Pés nas alturas, pés apertados, alguns talvez doloridos, pés machucados. É evidente que as mulheres insistem no salto alto apesar do desconforto. E é evidente que um dos ambientes por excelência do salto é o trabalho. Sim, o trabalho... Aquele que costuma ser visto como contraponto da velha "vocação para a maternidade" e, portanto, da reprodução da espécie. E assim seguem as mulheres, travestidas de boas reprodutoras, ao trabalho. É possível que, no nosso jogo cultural, o salto tenha se perdido desse seu sentido e hoje seja apenas isso: o salto alto, fetiche, simples marca habitual, simplesmente valorizada como costume, socialmente confortável em termos de se evitar o estranhamento. Mesmo assim, não deixa de ser fisicamente desconfortável e uma incógnita para mim - assim como os brincos, as calças justas, os tecidos de renda... Comentários: 18.3.07
A cidade é o lugar do próximo e do distante, já dizia Georg Simmel. Próximo fisicamente e distante socialmente. Esmagado, empurrado e encoxado dentro do ônibus, com o cheiro esquisito da respiração de alguém lhe surgindo do lado direito, um pouco acima do nariz. Tentava se concentrar nas próprias fantasias, mas não conseguia. Era um cheiro talvez de uma infecção dentária ou nasal, se é que isso existe. Isso não pode ser saudável... Ou será que estava se tornando uma pessoa fresca, burguesa? Porque chegava em casa e lavava as mãos, evitava se sentar com a calça bolinada na cama e tinha nojo do próprio cabelo, onde com certeza iam parar alguns respingos de tosses e espirros vindos de pessoas mais altas. Mas não queria se tornar um mauricinho. Estava num embate. Haveria um lugar definido para os fluidos corporais na luta de classes? Comentários: Por que será que sua língua sempre saía queimada de um café ou de um chocolate quente? Fora assim sua vida inteira, com minutos dedicados à arte de assoprar, assoprar até que esfriasse. Não teria problemas com isso não fosse o incoveniente que a língua sensível lhe causava agora na vida adulta. Saía com seus clientes para um cafezinho (convidado pelos últimos, claro) e lá ficava a esperar o café dar uma esfriada, enquanto o cliente, numa sensação de estranhamento, prestava mais atenção à xícara parada do que à conversação. Outras vezes, ao perceber a pressa do cliente, nosso amigo dava uma bebericadinha e, merda, queimava a língua. Geralmente só a pontinha. Com o trauma, desistiu da bebericada e passou a assoprar. Assoprar alimentos quentes, no mundo adulto, é imperdoável. Ele tinha certeza de que já havia perdido um emprego por causa disso. Um dia, com raiva de sua língua sensível e num impulso masoquista, decidiu botar todo o café na boca e fazer bochechos. Queimou-se sua língua toda, que ficou coberta por bolinhas vermelhas e insensível. No dia seguinte, um fio preto - que não saía - lhe cobria as laterais do órgão. Foi ao médico e recebeu a sentença: é necrose. Necrose? É. Passa? Acredito que sim. Pode não passar, então? É, pode... E aí? Você vai perder a língua. ! Vai sim. ! Sua língua vai morrer antes de você. ! Ah, não fique com essa cara. Todo mundo tem uma parte que morre primeiro. A minha foi o apêndice. Comentários: 14.3.07
Maria gostava de ironias. Gostava tanto que as usava sem perceber, o tempo todo, em qualquer momento, com qualquer pessoa. Maria ria das próprias ironias. Ria para si mesma, num contentamento egocentrado, sem perceber se os outros riam também. No início eles riam, sim, era fato. Depois, pararam de rir - algo que muito provavelmente coincidiu com o começo do vício de Maria pelo dizer o que não se quer dizer apenas para apontar o ridículo ou o vazio do que se dizia. Alguns começaram a se encher. Alguns, cheios, perceberam que toda aquela profusão de ironias (ou seria sarcasmo?) não era ofensiva a ninguém, e sim um meio de auto-afirmação. Outros não perceberam, ficaram ofendidos e brigaram feio com Maria. Maria entendeu tudo isso e aumentou a freqüência dos seus comentários irônicos auto-depreciativos. Não adiantou. Ela já tinha perdido seus créditos diante das outras pessoas. Aí, Maria calou a boca, emudeceu, só ouvia. Se não podia falar e escrever sem ironias, que não falasse nem escrevesse de maneira nenhuma. Naquele mundo, a ironia adquiriu um sentido pejorativo, foi moralmente banida e atirada aos leões racionais e denotativos. Comentários: 9.3.07
O dia-em-que-mr-president-visitou-são-paulo Mr. Presidente provavelmente já tinha desembarcado em São Paulo quando eu taquei SBP na mosca e, covardemente, joguei um pé de havaiana sobre ela. Nem agonizou. Finda a mosca, findo o zunzunzun irritante que ela se dedicava a fazer em torno da minha cabeça naquele quarto quente. Provavelmente a mosquinha vinha pra cima de mim jogada pelo vento de ventilador que ia e voltava. Mesmo assim, não fui compreensiva e minha raiva definiu o triste fim do chato e mal-agourento bicho. Não lembro agora... Ou melhor, não sei o que foi que Pablo Escobar fez com a mosca que lhe rondava a cara algumas horas antes de ser pego e morto pela polícia. A tia tinha certeza (foi o que vi no documentário) que era coisa ruim, destino. E mesmo não acreditando nessas coisas, odeio quando moscas teimam em dividir o mesmo espaço comigo. Poxa, imagine se eu acreditasse nessas coisas... Estaria agora preocupada com o ruim que está por vir. E imagine se realmente viesse. Seria muita coincidência. E imagine se acontecesse de novo com outra pessoa. Mais coincidência ainda. Mas não é que me lembrei da mosca quando alguém disse que fulano estava armado e ameaçando o motorista da lotação! E o meu dia-em-que-mr-president-visitou-são-paulo começou péssimo, com uma batida numa kombi, correria, montoeira de gente no fundo do micro-ônibus, ameaça de tiro, porta teimosamente fechada e trânsito na Radial Leste. Olha, Mr. President, o senhor cuja vida vale mais do que a minha, fui do pânico à raiva em dez minutos, depois de conseguir entrar num ônibus rumo ao metrô e dar com aquele bando de carro tentando ir pra não sei onde mas não conseguindo. Arma eu não vi não, mas tem gente que diz que viu. E a moça com a menina no colo me mostrava a mão. Tava até tremendo, e com criança a coisa piora. Ele podia matar a gente agora. Imagina! Meu deus! Imagino sim, colega. Imagino a notinha no jornal, provavelmente com uma chamadinha na metade inferior da capa, um tanto distante da manchete do Mr. President. Lembra quando o ex-papa polonês visitou o Brasil? Teve uma chacina no Rio. Mosca chata, desculpa. Comentários: |