Anti-Similar:: o qualquer e a coisa ou pseudo-sociologia :: |
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![]() "Depois, nada, voltar ao labirinto das ruas, desorientar-se, perder-se e tornar atrás, caminhar, comer sem apetite, só para conseguir aguentar de pé o corpo, entrar num cinema por duas horas, distrair-se a ver as aventuras de uma expedição a marte no tempo em que ainda lá existiam homenzinhos verdes, e sair piscando os olhos à luz brilhante da tarde" (José Saramago - "Ensaio sobre a lucidez")
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31.7.07
eu: http://www.youtube.com/watch?v=e4HiK8lw7tQ&mode=related&search= a alanis, na minha idade com 21 anos ela tinha lançado o jagged little pill eu, com 21 anos, nunca saí do país, não sei cantar, não ganho dinheiro e não sei o q fazer da vida hehe R.: [frown] Faltou ter nascido no Canadá... Lá é mais fácil Lá, a gente é menos loser eu: hehehe R.: hehehe R.: E o Ronaldinho que foi jogar na Europa e já era estrela com 18 anos. Eu com 23, aqui... Pena que a gente só pode focar uma coisa para fazer na vida... seria legal se a gente tivesse várias vidinhas paralelas e e pudesse testar as infinitas possibilidades que nos são colocadas. Tudo processado em computadores especializados... eu: quer entrar num grande projeto de documentário? R.: ? eu: é a nossa chance de fazer alguma coisa decente R.: ?? eu: vamos filmar! R.: O quê? eu: qq coisa! Comentários: 29.7.07
E se? O buraco tinha uns três metros de diâmetro e já tinha se tornado o grande assunto da vizinhança naquela manhã. "Você foi ver o buraco que abriu na casa do Seu M...?". A filha dele estava varendo a escadinha e, assim que alcançou o último degrau, o chão desabou. Diziam que ela não tinha caído por sorte, muita sorte, imagina! Para muita gente aquele tinha sido o tema da primeira conversa do dia. Alguém da família levantava, ia comprar pão e ficava sabendo. Chegava em casa e botava o assunto na roda da mesa do café da manhã. O portão da casa do Seu M. ficou aberto naquele dia e ninguém precisava tocar campainha ou bater palmas para anunciar a sua chegada. Era só ir entrando e dar de cara com o buraco. Dentro dele, uma água suja, marrom, fedida e borbulhenta. Ninguém sabia ao certo qual era a profundidade, mas com certeza era muita. Devia ser uma fossa mesmo, que foi sendo preenchida ao longo das últimas décadas. Em silêncio, seu conteúdo foi adentrando a terra e enfraquecendo a camada de cimento que dissimulava o mal-cheiroso conteúdo. Se vivêssemos num livro do García Márquez, aquele buraco poderia ser o lugar de todas as coisas que mandamos pra longe e que, tempos depois, voltam todas de uma vez, voltam com seus cheiros, sua coloração e sua profundidade desconhecida. Poderia ser o fim do mundo, que chega aos poucos, que primeiro engole uma casa, depois um quarteirão, um bairro, uma cidade e, por fim, um país inteiro. Um fim do mundo anunciado, que antecipa os pedidos de desculpas, os agradecimentos, as pazes e as brigas adiadas, as demissões, os amores que até aquele momento se construíam aos poucos. Uma alegoria até bonita da miséria e da beleza humana. Mas, aqui, era mesmo só um buraco, e ninguém sabia ao certo o que fazer com ele, se tinha que chamar a Sabesp ou só um pedreiro. Comentários: 22.7.07
Por um país mais triste II Cinco dias desde o indizível. Mas os jornalistas ainda parecem ter muito a dizer, "imagens exclusivas" a explorar "logo a seguir", "depois dos comerciais" [maior exemplo disso: o programa Domingo espetacular, da Record]. Sinto vergonha. Comentários: 14.7.07
Sim, eu me pergunto por que ainda escrevo num blog que ninguém lê. Aí, eu concluo que escrevo pra mim mesma, para treinar. Será mesmo que ninguém lê? Aí, eu vejo como sou hipócrita e descubro que, na realidade, escrevo para um possível internauta perdido que passe por aqui. Escrevo para um outro que nem conheço, que nem sei se existe. Pode ser só uma figura imaginária. Me pergunto se eu ainda escreveria caso tivesse certeza de que ninguém lê. Acho que não. Ter um blog é, sempre, uma atitude exibicionista. Seja bem-vindo, outro. Comentários: 7.7.07
Por um país mais triste Continuemos no lado escuro... Banalização da morte. Uma expressão banal, infelizmente. Mas nada define com tanta clareza essa situação de suspensão, anestesia e alienação que reina nesta imensa nação luso-carnavalesca. Viu que um policial matou um segurança num posto de gasolina no Rio? Viu o número de vítimas da ação da polícia no Complexo do Alemão? Viu a foto do policial morto na capa da Folha, atingido logo depois de mandar a fotógrafa deixar o local? Viu o caso do menino João Hélio? Lembra do índio Gaudino? Dos moradores de rua mortos a pauladas em São Paulo? Do homem que foi esfaqueado nos Jardins logo depois da Parada Gay? Daquela mulher que perdeu a filha e o irmão, mortos por bala perdida num morro do Rio de Janeiro? Da família queimada viva dentro de um carro? As pessoas estão MORRENDO. Entende? MORRENDO. Elas se vão. Não voltam. MORREM. Tudo o que elas planejaram é eliminado. Elas não verão mais, nem falarão, nem sentirão. Acabou. Ao Houaiss: MORTE Acepções ■ substantivo feminino 1 fim da vida, interrupção definitiva da vida humana, animal ou vegetal 1.1 Rubrica: medicina. cessação completa e definitiva de vida, esp. a humana E continuamos anestesiados, passamos pelas notícias de morte, e elas passam por nós. Deveríamos ser um país em LUTO, mas em vez disso somos uma nação animada com o Pan, entusiasmada com a eleição do Cristo Redentor como uma nova maravilha. Quem sabe se retomássemos coletivamente o sentido do luto, da tristeza pelo outro, de um certo desespero, se chorássemos, se sentíssemos a dor, e mais dor... Quem sabe cairíamos na realidade e poderíamos realmente pensar além dos nossos próprios umbigos. Pode ser produtivo se colocar no lugar do outro, imaginar como é estar num ônibus e receber um tiro, ou dormindo e ser acordado por pessoas te espancando. Precisamos ficar tristes, sinceramente tristes, também como sinal de respeito diante de todos esses que morreram de formas tão trágicas e banais. LUTO Acepções ■ substantivo masculino 1 sentimento de tristeza profunda por motivo da morte de alguém 2 luto (acp. 1) originado por outras causas (separação, partida, rompimento etc.); amargura, desgosto 3 tempo durante o qual devem manifestar-se certos sinais do luto (acp. 1) 4 o fato de perder um parente ou pessoa querida; perda por morte Comentários: 2.7.07
Geléia Faz alguns dias que o Geléia morreu. Há tempos ele andava sumido da rua. O cigarro quem comprava era algum parente, fazendo um favor. Geléia tinha 62 anos, era diabético e tinha uma história. Ganhou o apelido quando, jovem, alguém percebeu que a barriga branca exposta num jogo de futebol parecia uma geléia. Mas a melhor parte era sobre o pai dele, que decidiu ir embora e, anos depois, foi por acaso encontrado pelo Geléia numa delegacia do Mato Grosso. É estranho pensar que a entrevista com ele ainda está gravada numa fita por aí. Comentários: |